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Crescimento econômico é possível mesmo com crise política (Tendências)

Crescimento econômico é possível mesmo com crise política (Tendências)

A relação entre desempenho econômico e evolução da política no Brasil se intensificou ao longo do mandato presidencial inaugurado em 2015. A principal novidade desse período decorre não é necessariamente a magnitude das operações judiciais envolvendo a classe política, mas se refere ao questionamento da legalidade e legitimidade do mandato presidencial. O ineditismo desse período, na verdade, se encontra na possibilidade de duas transições presidenciais ao longo do ciclo eleitoral.

 O debate político em torno do destino do mandato presidencial sofreu uma alteração qualitativa importante nos últimos dias, sinalizando a dificuldade de construção de coalizões estáveis em um universo marcado por baixa credibilidade da classe política, elevada incerteza eleitoral e governo com baixa avaliação.

A principal novidade do debate político foi a retomada de especulações em torno do plano alternativo à manutenção do mandato Temer, que seria encabeçado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A despeito do quadro de fortes incertezas em relação ao timing e o destino final da denúncia contra o presidente, a tendência é de manutenção do atual governo até 2018.

Esse movimento, ainda em caráter preliminar e inicial, já afeta diretamente o jogo político da luta pelo mandato. O ponto principal refere-se à questão temporal. A solução para as denúncias do governo passa pelo rápido encaminhamento na Câmara, sob a pena do surgimento de novos “fatos políticos” decorrentes das operações judiciais e do crescimento da narrativa de que, sob Temer, o sistema voltaria para a paralisia decisória.

A crise política não deve ter solução no curto prazo. A crise do sistema partidário brasileiro limita o bom funcionamento do processo legislativo e coloca em risco a continuidade da agenda econômica.

Essa complexidade política gera nos agentes econômicos enorme dificuldade de leitura da magnitude e natureza dos riscos políticos. A conjuntura atual parece apontar para um descolamento entre a economia e política, sustentando a leitura de que a dinâmica da atividade ganhou vida própria das incertezas políticas.

A cadeia causal dessa leitura mais otimista para a conjuntura econômica decorre do comportamento benigno da inflação, abrindo espaço para a queda mais acentuada da taxa de juros. Além disso, os efeitos defasados da redução do afrouxamento monetário em curso e dos termos de trocas dariam impulso para o maior vigor da economia, independente dos desdobramentos de Brasília.

A elevada rejeição do governo deve produzir efeitos significativos de três naturezas: 1) manutenção do mandato, 2) encaminhamento das reformas e 3) corrida presidencial de 2018. Contudo, e esses efeitos devem se materializar no médio prazo. Por ora, a despeito da crise a Tendências mantém suas projeções de atividade para 2018, mesmo com a crise política.

De todo modo, independentemente da situação do mandato presidencial, a aprovação das reformas permanece bastante complicada. O tempo reduz o poder de agenda do Executivo, a despeito do presidente. Sob a elevada incerteza, coalizões políticas têm pouco poder de duração. Em paralelo a crise política, a economia brasileira emite sinais de recuperação. A aceleração segue em trajetória de queda, o que permite a manutenção do afrouxamento monetária em curso pela autoridade monetária. A inflação abaixo do centro da meta abre espaço para recuperação da renda dos consumidores, sustentando um comportamento positivo dos dados de comércio. O consumo das famílias deve contribuir positivamente para o crescimento, especialmente em 2018. Os dados de confiança continuam em trajetória positiva. A crise política não reverteu essa trajetória. A defesa das reformas é um ponto comum entre os partidos da base do governo. A elite política desenha um plano alternativo para a questão fiscal, se a reforma constitucional não tiver sucesso.

Nesse sentido, a principal fonte de risco político no cenário dos agentes para a economia brasileira aparece na corrida presidencial de 2018. Por ora, o mercado segue com aposta positiva para a economia mesmo com a crise política.

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